Processei uma comediante

Fui ver um espetáculo de stand-up de uma comediante chamada Carlota Aveiro. Comprei bilhete meses antes, cheguei cedo, sentei-me na terceira fila com uma cerveja. A sala enche e estão cerca de 800 pessoas. Fazem um aviso: este show está a ser gravado em direto num canal qualquer.

O stand-up começa. A gaja começa a disparar tantos insultos que quase parecia uma senhora idosa da aldeia. Passam-se uns minutos e ela está a fazer um monólogo qualquer sobre quase ter levado no focinho numa convenção de furries. Não sei bem o que fiz. Mas ela parou a meio do monólogo, olhou diretamente para mim e disse: "Ai, temos aqui um senhor com cara de quem mete o dedo no cu e cheira"

Uma luz começa-me a iluminar unicamente a mim. A sala riu-se. Eu ri-me também, mas achei a piada um pouco infantil, não?

"Aliás, este gajo tem cara de quem foi expulso da própria festa." E toda a gente mija-se a rir. Eu rio, também. Vamos seguir em frente, pode ser?

"Aposto que os teus amigos meteram-te uma airtag para fugirem de ti".

Ela não parou. Cada piada seguinte, durante a hora inteira, tinha um desvio de rota estranho e cirúrgico até acabar em mim outra vez. Eu ficava sempre constrangido só para não escalar a situação. Contou uma história sobre um namoro mau e terminou com "mas isto não é nada comparado com as experiências da ex-namorada deste gajo". A sala inteira, oitocentas pessoas, mijava-se a rir cada vez que ela apontava para mim. No final do espetáculo, começo a receber pedidos para seguir no Instagram. Até no Facebook já me pediram para adicionar. Oh que caralho.

Dias seguintes: estou a receber mensagens: "corno 😂😂😂" "tens cara de quem compra roupa no aeroporto" e merdas do género. Passam-se semanas e tenho facilmente mais de 2000 mensagens de pessoas estranhas a gozar comigo. Eu estou a ficar fulo. Mando uma mensagem para a comediante, chateado, a pedir se poderia eliminar um post onde o comentário principal é o meu nome. 

Ela não eliminou. Aliás, tirou print screen às mensagens e publicou nas redes com a descrição "😹". Mais pessoas ainda me seguem. E o ódio continua.

Alguém já descobriu o meu número e fui abordado várias vezes na rua. Estou constantemente a ser vítima de bullying por todos os meus colegas de trabalho porque o vídeo do roast agora está famoso nas redes. No escritório chamam-me Chico Chacota. O meu nome nem é Chico.

Entre amigos, conhecidos, vizinhos, estranhos, clientes, não há pausa: toda a gente direciona-me piadas que nem um Vasco Palmeirim sob o efeito de meia caixa de ritalina. E eu estou farto. Já chega. Isto é tudo culpa da Carlota.

Vou processá-la. 

Falo com um advogado e ele diz-me "tenho a certeza que vamos ganhar!". Fala-me de um monte de coisas das quais os podemos acusar, danos tal e tal, e decido confiar no gajo. Consigo uma audiência em tribunal porque meti ali um bom dinheiro. Mas o público descobre. 

Toda a gente começa a gozar ainda mais comigo.

Nesta altura, estava a receber bastantes mensagens de ódio, portanto decidi apagar tudo o que eram redes e trocar de números. Não ia à internet porque sabia que isto estava a ser notícia, e o nervosismo dava cabo de mim. 

No dia do tribunal, descubro que nas semanas anteriores ao julgamento criou-se um movimento inteiro anti-eu. No átrio do tribunal está lá uma multidão de gente a fazer um protesto com a minha cara completamente deformada para eu parecer que era o diabo. Em cima, tinha a descrição "Antes os Anjos, agora o Diabo!".

Vou para dentro do tribunal depois de ter basicamente feito uma caminhada de penitência através de uma multidão zangada. Nenhum polícia me protegeu muito, para dizer a verdade.

Entro na sala, o processo começa. O meu advogado faz um discurso que não correspondeu à confiança com que falava comigo quando era para lhe pagar. Termina e o tribunal ignora-o por completo. Não se ouve uma mosca. A advogada da defesa começa a falar e toda a gente assobia, apoia, bate palmas.

O juiz olha para mim com um sorriso de quem se ia mijar a rir mas tenta esconder.

O meu advogado sussurra-me "tenho a certeza que vamos perder". Peço para desistir. Está descartado.

Lá fora, já formaram uma claque para a equipa adversária. Estão a cantar  "lerdo burro estúpido casmurro" num ritmo que me ficou na cabeça. 

Meto-me num táxi e vou-me embora. Em casa, derrotado, pondero. O que fiz de mal? Considero se, talvez, o meu sentido de humor é uma merda. Pesquiso, e a pesquisa confirma-me que, na verdade, eu sou o que se considera uma florzinha de estufa. Tenho que mudar.

Fui a mais espetáculos de stand-up, desta vez sentado na última fila, a tomar notas num papel freneticamente como um empregado de mesa cocado. Comprei livros técnicos sobre escrita de comédia. Vi entrevistas com argumentistas de séries. Fui atrás de guiões que sempre me fizeram rir, para ver, linha a linha, como a piada se construía por baixo do texto. E na cabeça, mantinha a Carlota no background. Quero vingança.

Aprendi todos os detalhes e os pequenos truques. Encontra uma verdade engraçada. O que esperam? Faz o contrário. Junta duas coisas que normalmente não combinam. Exagera. Torna mais específico. Procura a interpretação mais absurda. Diz o pensamento que ninguém diria em voz alta. Contradiz algo. Dá tempo à piada. Cria tensão. Transforma observações em perspetivas. Não expliques piadas. E o mais importante: nunca sabes se uma piada é má até a contares.

Decido desaparecer uns meses para digerir tudo isto longe de Portugal. Na universidade tinha passado três anos na Turquia. Porquê não voltar?

Chegado à Turquia, começo uma nova vida social, agora influenciado pelo meu novo sentido de humor. Estou a falar sobre um assunto qualquer com um grupo e pratico o meu charme -  eles estão a partir-se a rir. Aí, eu percebo o gozo que me dá meter os outros a rir - e sempre que alguém se ria, sei lá porquê, mais enervado ficava com a Carlota. Mas não parei.

Uma das pessoas do grupo pergunta-me se eu alguma vez fiz stand-up. Disse que não, mas ele convidou-me para atuar num sítio que ele geria. Foi a primeira vez que subi ao palco improvisado, que parecia montado por escuteiros pré-adolescentes. Tremia tanto que quase deixei cair o microfone.

Olho para a plateia e reparo que há uma quantidade absurda de homens turcos com bigode.

Então pergunto:

“É mesmo verdade isto do bigode? É tipo... o vosso estilo nacional?”

Eles dizem que sim.

“Eu quero saber uma cena”

“Não faz comichão? Só quero mulheres a responder”

Pausa. E ouço alguns risos - mínimos, mas ouço. 

"Há um ranking de bigodes? O gajo que saca mais gajas é o gajo com bigode mais farfalhudo?"

"As mulheres fazem penteados lá em baixo em formato contra-bigode?”

E depois começam a aparecer uns risos.

Mas suficientes para eu pensar: “Pronto. Não vou morrer". Faço mais umas piadas porcas e apercebo-me que consigo navegar bem a linha entre ofensa e diversão. Às vezes lá ouvia uns assobios (deviam achar que estavam num jogo de futebol de certeza) mas lá corria tudo bem.

O dono do bar chamava-se Kemal e pagava-me em kebabs e em dinheiro, por esta ordem de prioridade. Ao fim de seis meses já não precisava dos kebabs. Era um homem novo.  Pratiquei naquele palco e consegui fazer estudos sociológicos que me foram dando mais material para piadas - material seguro, não-ofensivo, mas engraçado.

Fiquei lá dois anos. Perdi mais de 40kg. Vesti-me melhor. Fiz uns implantes, umas cirurgias discretas, nada de exagerado, só o suficiente para que o espelho já não me devolvesse imediatamente a mesma cara que oitocentas pessoas tinham decorado numa única noite. Continuava, apesar de tudo, com a Carlota a viver na minha cabeça sem pagar renda.

Decidi voltar.

Comecei do zero. Atuei em tascos, cantei ao improviso, fiz piadas na rua em Lisboa e subi mais depressa do que qualquer plano razoável tinha direito a prever. Ao fim de dois anos geria os meus próprios espetáculos numa sala com capacidade para 400 pessoas, sem ninguém me chamar coninhas de sabão. Quando ganhei dinheiro, criei um club de comédia e começou a ganhar sucesso. Estou a ganhar influência no mundo da comédia e já estou a ficar familiarizado com grandes nomes. Quando atuo, as salas ficam quase cheias e mesmo assim, ninguém me reconhece.

Tinha colocado uns anúncios em redes sociais e correram bem. No dia da minha primeira casa cheia a sério, vi-a na plateia: a Carlota, com um grupo de outros comediantes, cabine VIP - pagaram bem. Eu não me podia acreditar que, tão cedo, o meu plano já estivesse a dar frutos. Pensei, por um segundo, em fazer-lhe ali mesmo o que ela me tinha feito a mim. Mas era cedo demais. O meu plano era destruir a carreira dela, não envergonhá-la numa noite.

Dei o melhor espetáculo da minha vida. No fim, ela veio dar-me os parabéns, sem me reconhecer, e perguntou o que eu fazia antes disto tudo.

"Era trolha," disse eu. Ela tenta fazer algumas perguntas mas dou sempre respostas secas e curtas. A conversa ficou meia estranha e ela lá se foi embora.

Uns dias depois, chegou a carta. Timbre do programa dela. Convite formal, a dizer "de longe o comediante mais interessante a emergir em Portugal este ano". Ela não fazia a mínima ideia de quem eu era.

Li a carta três vezes, sentado na cozinha do apartamento novo. O plano está mesmo a resultar. Respondi que não. Escrevi de volta com todo o respeito profissional que consegui simular, mas o que queria mesmo dizer era: tu metes o dedo no cu e cheiras.

Continuei a subir. Salas maiores, bilhetes revendidos a preços obscenos. O meu club estava a bombar, e os melhores comediantes iam lá - exceto a Carlota. E, mês após mês, com uma atenção que já nem fingia desinteresse, via as audiências dela encolherem.

Tinha, a esta altura, contactos que anos antes não imaginaria ter. Um deles era o diretor de programação de uma rádio nacional, que me convidou para um almoço. Sentámo-nos e disse-me, sem rodeios, que um programa estava "a perder tração com o público". Eu sabia que programa era: o da Carlota. Curiosamente, tinha preparado algumas ideias sobre uns programas novos - tenho todo o interesse em entrar na rádio, sabia?

Aponto alguns problemas com o tipo de humor dela e ele riu-se, desconfortável, como quem já tinha reparado nisso mil vezes. Perguntou-me, quase a medo, se eu teria interesse num programa próprio, "algo mais fresco".

Fiz-me de puta fina e não disse logo que sim, que ia pensar e tal. Nas semanas seguintes, deixei-me entrevistar por quatro podcasts , fiz uma participação num programa de um comediante, e em cada uma dessas aparições deixei cair, com o ar mais casual do mundo, frases pequenas sobre como a comédia de certos comediantes - nunca com nomes explícitos - era ofensiva. Um vídeo, não feito por mim, começou a ficar viral nas redes: uma miúda fez um mini-documentário sobre "como o humor da Carlota Aveiro é degradante para os portugueses" e meu deus, que porrada que ela levou.

Ao longo dos meses, fui verificando a quantidade de seguidores da Carlota que ia diminuindo a um ritmo crescente. Ela tinha carreira tanto em revistas e jornais como na rádio, e notava-se que o pessoal já não falava dela. Ia lendo comentários, registava as piadas que ela fazia (fracas) e via as casas onde ela atuava cada vez mais pequenas. Estava a resultar. Três meses depois, soube pela imprensa, num parágrafo pequeno que qualquer pessoa sem interesse pessoal ignoraria. O contrato dela não tinha sido renovado na rádio. Soube, através de outros, que não lhe pediram mais colunas escritas. A carreira dela resumia-se a espetáculos em festinhas de aldeia.

Não percebi porquê. Três semanas depois, apareceu um vídeo dela, num palco pequeno, a falar sobre "aquele gajo que uma vez a processou". Ninguém se riu. Neste momento, soube que ganhei, e mal tive que me esforçar - ela atirou-se de um penhasco de piadas. Esperei sentir a vitória inteira que passei anos a construir na cabeça. Mas em vez disso, senti uma apatia enorme.

Algo em mim implodiu. Não conseguia, já não queria, fazer mais piadas. A única coisa que me motivava a ser engraçado tinha sido a vontade de ver a Carlota a beber vinho da box do Lidl suja numa esquina.

Nesta altura, estava a fazer uma pausa. Não havia inspiração, e todas as piadas que fazia eram ditas sem coração algum. Tinha um espetáculo marcado, mas bloqueei. Cheguei ao dia sem material algum, na esperança de conseguir improvisar. Falhei em palco, miseravelmente, vaiado, chamado rabicho por gente que meses antes me aplaudia de pé.

Fui para o Twitter tentar escrever qualquer coisa engraçada. As respostas vieram todas iguais: "onde?" "onde?" "onde?" Perguntei a um deles, genuinamente confuso, onde o quê. "Onde está a piada?", respondeu ele, com mais de dois mil gostos por baixo.

A mesma sensação de anos antes, a ganhar forma outra vez. O meu sentido de humor foi-se. A minha única motivação era vingar-me da Carlota, e agora nada me motiva para ser engraçado. Aliás, eu sinto-me pessimamente mal por ter feito isto à Carlota.

Já tinha tocado o fundo uma vez e consegui erguer-me. Desta vez não queria erguer-me. Só queria ponto final. Liguei-lhe. Perguntei se podíamos falar. Ela disse que sim.

Encontrámo-nos num café pequeno, quase vazio. De vez em quando alguém olhava para nós como se fôssemos parentes de quem já não se lembravam bem.

"Sabes quem sou?" perguntei.

"Achas que não sei? Tu és o gajo que me destruiu a carreira."

"Sim," disse eu. "Mas não."

Mostrei-lhe o cartão de cidadão. Ela olhou, alternou o olhar entre mim e o documento, incrédula. "Não pode."

Deixei-a processar. Os movimentos dela pareciam um pouco teatrais e estranhos - assumi que fossem maneirismos da sua personalidade de palco. Quando conseguiu, disse que nos tínhamos fodido um ao outro de uma forma quase romântica. Achei a piada fraca. E foi aí que percebi a verdade toda: o que me tinha magoado, no fundo, nunca fora o roast. Fora a mediocridade dele. Eu tinha padrões, e ela não tinha tido nenhuns a usar contra mim.

Disse-lhe isso mesmo. Que tinha sido fácil destruir-lhe a carreira porque ela nunca fora exigente consigo própria. Piadas sem camadas. Ninguém se revia nelas.

"Tens razão," disse ela.

Soube bem ouvir aquilo. Senti a missão cumprida, uma paz esquisita a instalar-se. Só que, ao olhar para cima, ela estava a chorar. Perguntei se tinha sido duro de mais. Disse que sim, que doeu, mas que fora exatamente por isso que a carreira dela tinha morrido. No fim, perguntou: "Ensinas-me?"

Não queria carreira nenhuma de volta. Não lhe guardava ódio nenhum. E senti uma leve motivação para voltar a contar piadas a surgir. Portanto, aceitei.

Passamos semanas a rever os espetáculos dela juntos. Repetições, personagens caricatas, momentos de surpresa a sério, timing reconstruído do zero. Um espetáculo de hora e meia, melhor do que qualquer coisa que eu faria sozinho, e ela sabia que sozinha também nunca o faria. Decidimos alugar uma grande sala e tentar relançar a carreira da Carlota com um grande show, que iria ser gravado para colocar gratuitamente no Youtube. Eu decidi financiar tudo, mas receberia 90% dos lucros - a Carlota ficava com a sua carreira relançada e outros 10%.

Eu organizei o espetáculo, investi em anúncios e fiz com que a sala estivesse cheia. Chegou o dia. Sentei-me numa cabine VIP, vista central, o espetáculo era meu tanto quanto dela. Ela subiu ao palco, e durante vinte minutos foi perfeição pura, a sala inteira a mijar-se a rir. Fez o espetáculo tal como o tínhamos escrito, palavra por palavra. Nunca tinha visto algo a correr tão bem.

Estamos a chegar ao fim e ela já fez de tudo. A meio de um monólogo sobre furries que eu não me lembrava de ter escrito, ela parou e disse: "Esperem lá."

A luz apontou-me a mim.

"Este homem," disse ela, "este não é o gajo que me processou?"

E, finalmente, algumas pessoas reconheceram-me em público. Foda-se, eu tinha conseguido evitar isto. Uns gritavam o meu nome de comediante, outros o nome de anos antes: o Diabo. Levantei-me e saí a correr, de modo a tentar interromper o que se estava a passar. A sala explodiu de riso enquanto eu corria, com o coração a 1000 a tentar perceber o que se acabou de passar. 

Saí porta fora. Estava zangado. Eu esforcei-me tanto por ela e ela faz-me isto?

Fui até ao camarim, bati à porta. Ela disse "sim?" e abri a porta.

"Tu devias ter vergonha! Eu ensinei-te tudo e dei-te tudo para a tua carreira vir ao de cima outra v-" e aí reparei, tarde de mais, que o telemóvel dela já estava virado para mim, a gravar. Saí, fechei a porta.

Em casa, centenas de notificações. Ela tinha publicado o vídeo, legendado com "😹". Reparei em algo mais: no vídeo, ela já estava a gravar antes de eu bater à porta. Ela já sabia que eu ia lá.

Ensinei-a bem de mais. Pelo menos tenho isso. Mas meses depois, chegou uma carta dela.

"Queria só que soubesses: eu sempre soube. Vi-te em vídeos da Turquia. Diferente, mas reconheci-te logo. Esperei que voltasses porque me sentia mal com o que te tinha feito, mas antes queria perceber que tipo de pessoa eras porque eu não me associo com peles de piça de andorinha. Convidei-te para o programa, e em vez de aceitares, começaste a minar-me. Tive a resposta que precisava.

Tinhas razão. As minhas piadas eram muito básicas, e a minha carreira estava a ir pela água abaixo. Foi por isso que aprendi as tuas piadas: para te roubar o teu público. E tu deste-me tudo.

Por isso, só te digo isto: tu metes o dedo no cu e cheiras."

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