Sou, desde novo, fascinado pelos tascos portugueses. Acho que há algo de maravilhoso em comer comida de sítios que assombram a ASAE. Quando há 6 meses atrás me vi apertado de dinheiro, decidi arranjar um part-time. Dirige-me a um tasco para pedir trabalho. Sim, como empregado de mesa. Eu aceitei.
No meu primeiro dia conheço o meu patrão, Euclides. "Não me trates por senhor que o senhor tá no céu, e o peso dos meus colhões mantém-me preso aqui na terra" diz-me ele. Eu insisto em chamar-lhe sempre Sr. Euclides.
Como eu nunca tinha servido à mesa, ele explica-me o processo.
Os clientes vão-te pedir merdas. Eu faço as merdas. Se te vêm com pedidos especiais ou algo do género manda-os logo para o caralho. Os vegetarianos que vêm para aqui mais vale a pena irem embora. E tens que andar despachado. Se o cliente senta, pede a comida, a comida vem e a mesa não está posta, ele vai comer com o quê? Com a piroca? É bom que não veja isso a acontecer". No meio deste discurso, eu estou a pensar no quanto adoro ser tuga.
O tasco é numa freguesia do centro que ficou parada em 1990. Aqui todos são gente rude do campo. Os clientes do tasco são trolhas mal-educados, agricultores com problemas psiquiátricos ou gente amiga do Euclides, sendo a 3º categoria a pior. Temos 3 zonas de clientes: uma esplanada, a sala de refeições principal e a zona de entrada, com aquelas mesas pequeninas.
Na zona de entrada temos o cenário tradicional de um tasco: azulejos com mais de 50 anos rachados e cheios de sujidade a cobrir o chão e metade das paredes, mesinhas e cadeiras tradicionais de metal e base de pedra, uma TV com som excessivamente alto e uma cambada de bêbados sentados ao balcão. A comida é servida em travessas de alumínio ou barro vermelho, e nenhum talher está propriamente limpo. Quando tentei sugerir polir os talheres após a limpeza, o Euclides disse-me que nem tempo tinha para polir a piça, portanto mais valia que me deixasse de merdas.
Quando não estamos a servir refeições, é um antro de bêbados. Todos os bêbados vão lá para tentar conversar um bocadinho com a filha do Euclides, a Soraia. É a única mulher que lhes dirige uma palavra. Não há piropos ou conversas desagradáveis porque ela é assertiva (e assustadora quando é preciso) e ninguém se mete com ela. Mas ela recebe tranquilamente o triplo do que eu recebo em gorjetas porque ela sabe como manter o tasco sob controlo e nasceu para aquilo.
Para apoiar o patrão e a filha, está lá também uma empregada ucraniana que não fala uma palavra de português, a Maria, que vimos a descobrir que se chamava Zirka. Meses depois, descobrimos que se chamava Lilia. Ficou a ser tratada como colega. Ela apoia na cozinha a preparar coisas mais simples, lavar pratos e limpar. A dada altura, quis falar com ela para saber um bocado mais sobre ela. Estava no restaurante e não sabia nada dela. Arranjei uma app que traduzia o que dizia para ucraniano e ela olhou para mim de forma surpreendida. Na altura não percebi o olhar. Tentei conversar mas ela estava muito estranha. Contei ao pessoal que eles assim podiam falar com a colega e o Euclides aproveitou aquilo para finalmente lhe explicar como fazer trabalhos que não conseguia explicar dantes. Senti-me mal porque a mulher passou a trabalhar o dobro. Um dia, ela tocou-me no ombro, pegou no telemóvel e disse algo em ucraniano para o microfone. Olhei e era app que descobri. Traduziu "vai-te foder".
O tasco é sítio para fazer bastantes estudos sociológicos. Ao longo do tempo, fui aprendendo e existem três tipos de bêbados:
- o bêbado apático: são os gajos que vêm para o tasco depois das 14h, bebem 3 ou 4 copos de vinho e ficam a olhar para o nada durante muito, muito tempo. Bebem o vinho como um fim em si mesmo. Não ficam mal ou bem dispostos - simplesmente ficam, porque o vinho funciona como um anestésico;
- o bêbado social: vêm para o tasco a qualquer hora e vêm para conversar e criar furor. Falam alto, falam de forma agressiva, riem-se e chateiam-se mas bebem como o caralho. O vinho é um meio para se divertirem e passarem o tempo.
- o bêbado filho-da-puta: não há muitos porque normalmente acabam por ser expulsos do tasco, mas são aquela gente que nunca teve o amor de uma mulher. Discutem, queixam-se e nunca nada está bem, e falar com empregados de algum sítio é a única forma que têm de sentir poder.
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