Tinha eu 6 anos. Estamos numa escola numa freguesia do norte ainda com telhas de amianto. A vida é boa. Só tenho dois grandes problemas: um medo incompreensível de sapos e um bully chamado Mota.
O Mota não era um génio do mal a fazer planos maquiavélicos. Não me vou meter aqui com rodeios: era burro como uma porta. Apercebeu cedo que era mais alto do que a média e decidiu girar a sua personalidade inteira à volta disso. Dava-me porrada todos os intervalos. Odiava aquele gajo.
Se já foram vítimas de bullying, sabem que há uma coisa que normalmente não é considerada: a qualidade dos insultos. Porque nem todos os insultos são iguais. Há uma diferença enorme entre chamarem-te "gordo" e "buraco negro de chocapics". Portanto, o sofrimento de uma jovem vítima pode ser redobrado quando o bully é pouco original. Não há uma nuancezinha, ou um vislumbre de inteligência do gajo que te está a dar cabo da cabeça. Com muita tristeza minha, o Mota não era um bully com qualidade.
Um dia estávamos a jogar à bola no recreio (aquele futebol caótico onde a bola é só um íman que atrai 20 crianças ao mesmo tempo). Eu estou a atacante e o Mota está a defesa, a partir-me a boca toda. Um puto chuta a bola para além da cerca e vai parar a um charco ao lado do campo, onde passava um pequeno riacho que vinha do campo de cima.
Vamos lá buscar a bola e alguém repara: sentado e quieto, está lá um sapo, a viver a sua vida de sapo.
Oh caralho, penso eu. Eu, como vos disse, estou aterrorizado de sapos. Eu não estou nada a gostar da brincadeira mas os putos decidem-se todos aproximar do sapo enquanto eu fico cá atrás. Ficam todos muito curiosos. Não sei se foi um desafio ou se foi o próprio Mota a oferecer-se mas um minuto depois ele está agachado ao lado do charco, pega no sapo e lambe-o.
Nós ficámos ali, um grupo de crianças de 6 anos, em silêncio absoluto, a processar o que tínhamos acabado de testemunhar. Eu decido finalmente que este é o meu pior pesadelo. O Mota devolve o sapo ao charco, limpa a boca na manga, e volta a jogar à bola. Como se nada tivesse acontecido. Eu respiro de alívio porque aquilo podia ter corrido muito mal para mim mas ok, já passou.
A cena é: ele voltou a jogar bem. Estava a jogar de defesa e nessa manhã meteu seis golos, a fazer dribles que nenhum de nós conseguia acompanhar, a marcar de calcanhar. O gajo celebrava os golos com aquela arrogância de quem sabe que é o melhor em campo.
Eu estou fodido. Isto é o meu primeiro contacto com doping e nem sabia muito bem o que estava a acontecer. Achei uma injustiça. O meu bully descobriu uma vantagem sobre mim que todos podem ter exceto eu.
No intervalo seguinte, os putos estão todos a falar do quão bem ele jogou. Se o Mota lambeu um sapo e ficou bom a jogar à bola, a lógica é simples: os sapos dão super-poderes da bola. Os putos foram todos lá, lamberam o sapo, e ficaram ou todos energéticos ou com uma caganeira enorme. Os professores, auxiliares e pais ficaram todos confusos sobre o que teria causado, mas lá ignoraram. Coisas de putos, né?
Mas no dia seguinte o charco tinha lá os seus consumidores regulares. Começaram com teorias de que tinham que molhar o sapo na água, lamber 10x, etc. Como se fosse um culto.
Durante uns bons dias, aquele recreio transformou-se hipoteticamente no melhor campeonato de futebol da região Norte. Putos que normalmente nem acertavam na bola começaram a fazer jogadas de exibição. Um formigueiro na língua, um calor esquisito, uma vontade repentina de correr mais depressa do que o normal. Acharam todos que tinham descoberto o segredo mais bem guardado do desporto português.
Isto durou até que o Sr. Hermínio apareceu.
O Sr. Hermínio era o dono do terreno ao lado da escola, um lavrador com a paciência tipicamente reduzida de quem passa o dia a lidar com miúdos como o Mota. Apareceu um dia à hora do intervalo, viu uma fila de crianças a lamber sapos e teve uma reação que, em retrospetiva, foi extremamente moderada dado o que estava a testemunhar.
"Ó putos, mas vocês estão a fazer o quê?"
Explicamos, com o orgulho de quem acabou de fazer uma descoberta científica: os sapos davam poderes de futebol.
O Sr. Hermínio ficou ali especado, a olhar para nós, e depois para o charco, e a fazer a ligação que nenhum de nós, evidentemente, tinha feito.
"PAREM JÁ COM ESSA MERDA! ISSO TEM PESTICIDA! "
Nós sabíamos lá o que era pesticida, mas o homem ficou tão chateado que saímos todos a correr. No intervalo seguinte, estava lá uma funcionária da escola a impedir-nos de ir para lá.
Não sei ao certo o que estava naquele produto (não tive envolvido nas reuniões da escola, que envolveram muuuuuitos pais). Quem diria que nós não éramos atletas a descobrir um segredo ancestral dos sapos do Minho?
Continuei fodido porque o Mota continuou a jogar bem depois disso. No entanto também continuou burro. Tem agora 37 anos e vai para o 10º emprego diferente como aplicador de pladur.
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