Este ano, após vários insucessos, a minha freguesia voltou a organizar as festas do padroeiro cá da aldeia. A festa centrou-se em angariar dinheiro para os escuteiros comprarem uns bombos novos, porque já não bastava serem escuteiros - tinham também que ir fazer uma barulheira enorme todas as sextas-feiras às 7 da tarde. Lá arranjámos algum entretenimento, comida e bebida, um cantor com uma máquina de karaoke elaborada e o elemento essencial da festa: uma vaca-de-fogo.
Para quem não sabe o que é uma vaca-de-fogo, imaginem uma estrutura semelhante a uma vaca, fabricada em metal. Na parte de fora, soldam-se suportes onde se mete a única coisa lógica que se poderia meter: foguetes. Depois daquilo estar tudo aceso, um gajo que bebeu uma quantidade recorde de minis pega na estrutura, leva uma palmada no rabo e siga lá vai ele a andar com os foguetes a disparar para todo o lado. Tudo muito, muito estúpido. Mas também é muito divertido.
O truque para uma vaca-de-fogo de sucesso é fazeres uma lista de todos os gajos que não acabaram o 4.º ano por impossibilidade intelectual e selecionar o mais rápido. Quanto mais rápido for, melhor, porque assim os foguetes não acumulam num único sítio. Claramente, fazes isto com algum avanço, para a pessoa praticar no dia e lhe dizeres o percurso a fazer, de modo a minimizares os vidros partidos e a quantidade de foguetes disparados para o cu das pessoas. O melhor percurso costuma ser à volta da igreja, dado que é tudo pedra e o pessoal tem sempre para onde fugir. Foi isto que expliquei a um gajo que se tinha voluntariado para a levar e ficou tudo organizado, com segurança e o nível adequado de risco.
Ora, problema: chegamos ao dia da festa e o gajo que ia andar com a vaca nem vê-lo. Vamos lá procurar voluntários. Passa-se a tarde, o jantar, um bocado da festa e ainda não temos ninguém. Até aparecer o nosso herói: o Barril.
O Barril tem este nome por dois motivos: para descrever o seu formato (redondo) e como o obteve, que (bebendo). E digamos que também não é o gajo mais esperto porque ele trabalha na drogaria cá da zona e, quando fui buscar uma tesoura de podar, o gajo chamou-lhe um “corta-uvas”.
Após a atuação dos escuteiros e a barulheira horrível que lá fizeram, sei lá como calhou-me a mim a sorte de ter que arrumar os bombos dos escuteiros. Procuro o Barril porque não me apetece estar a carregar aquilo. Ofereço-lhe 5 senhas para minis e ele trata do assunto. Adoro este homem.
O programa da festa estava a chegar ao ponto da vaca-de-fogo. São 00:30 e nós dizemos-lhe que é altura. Ele está radiante. O pessoal junta-se para meter aquilo em cima dele, acendemos os foguetes de lado, ele começa a dizer para as pessoas se afastarem e lá vai ele.
Levanta-se, balança-se e cinco segundos depois vai com o focinho ao chão. A vaca-de-fogo funciona em cadeia e de forma meio aleatória. Ou seja, desde o momento em que um gajo acende aquilo, o barraco está armado.
Sucedem-se então dois minutos em que o Barril está só com o focinho enfiado no adro da igreja e foguetes a disparar contra o sino. É quase uma da manhã e aquela treta está a tilintar sem parar. O pessoal tenta atirar água, mas aquilo simplesmente não para de acender. O Barril está lá debaixo a dizer “ajudem, ajudem” e nós com medo de levar com um foguete nos cornos. Passam-se lá os dois minutos e aquilo para de arrebentar. Por sorte, os foguetes só rebentaram até metade.
Silêncio completo. Vamos a correr e a perguntar “Ó BARRIL, TÁS BEM?” e o homem está lá deitado de quatro, sem se conseguir levantar. Tiramos-lhe aquilo de cima e sentamo-lo num banco. Está todo arrebentado, sem abrir os olhos direito, e com a camisola toda chamuscada. Tento ajudar e vou buscar água.
Volto e ele está a beber uma mini.
Ora, pelo menos não morreu.
A festa lá prossegue e continuamos a andar de um lado para o outro a resolver as consequências da maldita vaca. Algumas casas ficaram com paredes meias chamuscadas, alguns vidros partiram e um gajo queimou o braço. Nada que uns finos e umas horinhas de trabalho não resolvam.
Até que alguém me diz: Ó XXXXX, arrebentaram com a santinha!
Eu vou a correr para a entrada, sem querer acreditar na minha sorte. A santinha está toda estourada. Parece que esteve a fazer uma estufa com um Seat Ibiza do tuning. Fico de boca aberta a olhar para aquilo. Aquela merda tinha custado 4.000 paus.
Estou a pensar em soluções. Não encontro nenhuma. São cinco da manhã, a santinha está destruída, há casas chamuscadas, um gajo tem o braço queimado e eu já estou a fazer contas mentalmente a quantas festas vamos ter de organizar para pagar aquilo.
É então que, de um momento para o outro, a música para.
Ao longe, ouço um:
FIIUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU - - - PÁÁÁÁÁÁÁÁ.
Eu conheço aquele som.
É a vaca-de-fogo.
Vou a correr com uma velocidade incrível. Não sabia que conseguia correr tão rápido, mas aparentemente o corpo humano consegue atingir velocidades bastante interessantes quando percebe que alguém voltou a acender uma vaca de fogo às cinco da manhã.
Vejo ao longe que alguém acendeu a vaca outra vez. Eu não estava para merdas e NÃO ia assumir mais danos. Fiz um sprint enorme e, antes que os foguetes começassem a estourar, entrei a pés juntos contra a chapa de metal. Dou um malho espetacular porque fiz isto sem pensar e caio diretamente em cima do paralelo.
Ouço um gajo a dizer:
- FODA-SE! ÉS BURRO OU QUÊ, CARALHO?
Quando reparo, o gajo que estava no chão era o mesmo que tinha sido chamado inicialmente para andar com a vaca.
Aparentemente, ele tinha chegado atrasado e tinha-me tentado ligar. Alguém lhe tinha dito que era para aparecer às duas da manhã. Quando chegou, os outros membros da organização decidiram que mais valia a pena acabar a vaca e, enquanto eu fui ver a santinha, criaram uma zona “segura” para lançar os foguetes.
Eu sou um burro do caralho.
O gajo está todo aleijado no chão. Está a dizer que vai chamar a polícia, que eu sou um filho da puta, etc. Eu estou todo partido porque caí de lado e o braço está-me a doer tanto que já estou a começar a considerar que talvez tenha feito merda, mas acho que não parti nada.
Lá nos metemos a pé e o pessoal decide acabar a festa. O DJ desliga a música, vai tudo para casa e começamos a fazer a contagem da noite.
Chegamos à conclusão de que a festa nos rendeu um total de 10 euros.
Lá se vão os bombos dos escuteiros, não é?
Terminamos a avaliação completamente desalmados. Tanta coisa para ganhar 10 euros. Eu vou para casa na carrinha dos escuteiros e levo os outros organizadores comigo.
Chego à carrinha e observo que a janela está aberta.
Paro.
Há qualquer coisa que não está bem.
Puxo pela cabeça e lembro-me: a carrinha estava estacionada ao lado do Barril quando ele estava com o focinho no chão. As memórias estão-me a vir à cabeça e começo a conectá-las. Vislumbro uma imagem do Barril a colocar os bombos na mala da carrinha dos escuteiros. Oh não. Abro a mala e entraram não um, não dois, mas três foguetes lá dentro, o que resultou em 7 bombos chamuscados e 4 rasgados.
Para a semana é reunião da comissão de festas e vou ter que dar justificações. Mas eu só sei que agora as sextas-feiras às 7 da tarde são muito mais tranquilas.
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